CCCC, China, Energia, Infraestrutura, rodovias

Crescendo sem alarde

Crescendo sem alarde

Crescendo sem alarde

Aproveitando espaços que empresas brasileiras envolvidas com a Lavajato tem perdido, a China aporta bilhões na infraestrutura brasileira

A traídos pela derrocada de uma série de empreiteiras brasileiras investigadas por corrupção no âmbito da operação Lava Jato e alinhados com o plano estratégico do governo chinês chamado ‘One Belt, One Road’ (Um Cinturão, Uma Rota), que busca refazer de maneira mais abrangente a milenar rota da seda, os investidores chineses vem aumentando cada vez mais sua presença em setores estratégicos do mercado brasileiro de infraestrutura, como energia, agronegócio e rodovias.

O projeto ‘One Belt, One Road’ começou a ser apresentado ao mundo em 2013 e pretende, até 2021, investir cerca de US$ 1 trilhão no setor de infraestrutura de aproximadamente 70 países em troca de uma abertura comercial para os produtos chineses. Dados da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China (CCIBC) indicam que em 2017 os investimentos chineses no Brasil somaram cerca de US$21,9bilhões, montante que o presidente da Câmara, Charles Tang, acredita que deve se repetir em 2018.

Tangnota que os Estados Unidos, com as medidas protecionistas que têm sido adotadas pelo presidente Donald Trump, “está entregando a liderança global para a China. O governo de Xi Jinping não constrói muros para separar as nações, muito pelo contrário, ele derruba os muros para ter alianças com o mundo inteiro”. Tang foi executivo do Banco de Investimento do Brasil e do Bankboston no início da década de 80, e trabalhou na introdução das operações de leasing no país, tendo estruturado o negócio nos bancos Bozano Simonsen, Safra e BMG, entre outros.

Para o presidente do Haitong Banco de Investimento do Brasil, Alan Fernandes, o ambicioso plano de expansão global da China fica claro ao se analisar o tamanho das empresas do país oriental que começam a internacionalizar suas operações. “Inicialmente o programa ‘ One Belt, One Road’ envolveu as principais empresas das províncias chinesas, equivalentes aos nossos estados, partindo em busca de oportunidades em outros países, mas agora já vemos empresas menores, de dimensão municipal, fazendo esse mesmo movimento”.

O banco é controlado pela Haitong Securities, empresa de investimentos chinesa baseada em Xangai que em 2015 comprou o Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), instituição financeira de origem portuguesa com atuação no Brasil e que passou a ter a atual denominação desde então. “Desde que ocorreu a troca de controle do banco definimos uma clara estratégia de ter uma participação relevante na conexão entre China e Brasil”, diz Fernandes. Ele avalia que o aumento de medidas protecionistas dos Estados Unidos contra a China tende a fortalecer as relações do gigante asiático com seus pares emergentes. “Todo movimento individual de proteção de uma determinada economia faz com que ocorra um rearranjo das parcerias dos outros agentes do mercado em busca de eventuais alternativas”.

Já o diretor executivo para América Latina do conglomerado chinês Fosun, Diogo Castro e Silva, lembra que na “história mundial apenas nos últimos 200 anos a China não foi a maior economia do planeta, e agora ela está apenas retomando seu lugar natural no quadro global”.

O grupo Fosun desembarcou no país em 2016, quando adquiriu o controle da gestora Rio Bravo, tendo comprado no ano seguinte também a corretora Guide e uma torre comercial em São Paulo. A Fosunjá estava presente no país desde 2010, mas de maneira indireta, quando assumiu o controle do Club Med. “Olhamos de forma atenta e com bastante cuidado a economia brasileira, sempre mapeando as oportunidades que entendemos ser interessantes”, afirma Silva. Segundo o executivo, os setores financeiro, de saúde, real estate e turismo são tratados como prioritários nos planos de expansão global do conglomerado asiático.

Castro e Silva ressalta que o Fosun não promoveu alterações no negócio da Rio Bravo, com a manutenção dos membros da diretoria e da estratégia da asset. “Ao investir em outros países o Fosun busca companhias com sócios alinhados à nossa estratégia, sem a necessidade de trazermos profissionais da China”.

Lava-Jato – Além do objetivo do governo chinês de recolocar a China como um dos principais players na agenda geopolítica global, Tang, da CCIBC, lembra que o envolvimento de grandes empreiteiras brasileiras em casos de corrupção e a recessão econômica atravessada pelo Brasil nos últimos anos facilitaram a chegada do capital chinês à região. “Desde que se iniciou a Lava Jato e a crise econômica, foram abertas muitas oportunidades para empresas estrangeiras nos grandes projetos de infraestrutura, uma vez que antes o setor era dominado por empreiteiras que hoje são investigadas pela Polícia Federal”, afirma Tang.

Um dos negócios recentemente intermediados pelo Haitong foi a aquisição, em maio de 2018, das participações da Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa na PPP de São Lourenço (área de saneamento), pelo grupo estatal China Gezhouba Group Company (CGGC) em parceria com a Sabesp. Além disso, no ano passado o Haitong também trabalhou nas aquisições da Belagrícola e da Fiagril (ambas empresas do setor de agronegócio), pelo conglomerado chinês privado Pengxin Dakang.

A CCIBC, por sua vez, teve participação no acordo estabelecido no ano passado entre a Shanghai Electric e a Eletrosu, que prevê investimentos de US$ 1 bilhão na área de transmissão de energia no Rio Grande do Sul, e no aporte de aproximadamente US$ 2 bilhões pelo grupo chinês BBCA para implantação de uma unidade de processamento de milho no município de Maracaju (MS), em 2013.

O presidente da Câmara afirma que, a pedido do então ministro de Minas e Energia Edison Lobão, tentou trazer a empresa de energia chinesa Sinopec para investir no setor de refinarias no Ceará e Maranhão, mas as condições financeiras impediram o estabelecimento de um acordo. “A presidente da Petrobras na época, Graça Foster, chegou a ir até a China assinar o acordo, mas o projeto acabou não saindo do papel porque as condições comerciais apresentadas pelo governo brasileiro não agradaram e não foram aceitas pela Sinopec”.

Segundo Tang, o primeiro ciclo de investimentos dos chineses no país foi no setor de óleo e gás, passando para energia em uma segunda etapa, e projeta para o futuro próximo o setor de ferrovias. “Estamos vendo os problemas que o país está atravessando com a paralisação das rodovias, deixando claro a necessidade de investimentos em outros modais de transporte”.

Conexão – O Modal é um dos bancos brasileiros que mais tem atuado na intermediação dos investimentos chineses no Brasil. “Eu já tinha uma conexão grande com a China antes de entrar no Modal. Havia assessorado a State Grid na primeira aquisição no Brasil”, afirma o co-CEO do Banco ModalEduardo Centola, que antes de ingressar no Modal, em 2012, foi CEO do UBS no Brasil. A State Grid iniciou seus investimentos no país em 2010 na área de transmissão de energia.

“No Modal nos dedicamos em fazer a intermediação de empresas chinesas interessadas no mercado brasileiro com muito afinco nos últimos cinco anos, com muitas viagens para a China, sendo dez só no último ano, e muito trabalho para gerar uma confiança mútua e importantes parcerias de longo prazo”, diz Centola, que cita entre as operações de investidores chineses intermediadas pelo Modal a aquisição de 80% da Concremat e de 51% do Porto de São Luís pela China Communications Construction Co (CCCC), e o investimento chinês feito para a compra dos ativos da Abengoa através do fundo TPG Strategic Infrastructure.